quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Artigo: Perfeição dinâmica e gesto criador: a obra de arte como processo e presença - Texto de Ronaldo Campos

 

Artigo: Perfeição dinâmica e gesto criador: a obra de arte como processo e presença


                                                                           Texto escrito por Ronaldo Campos



1. Introdução

O século XX trouxe consigo uma profunda transformação nos modos de conceber a arte e sua produção. Rompendo com os paradigmas da representação tradicional, a arte contemporânea passou a valorizar processos, gestos e experiências que escorrem entre a matéria e a forma. O gesto do artista, a improvisação e o processo criativo passaram a ser tão fundamentais quanto o objeto artístico resultante. Este artigo tem como objetivo analisar a obra de arte como um organismo dinâmico, em que o processo de criação não é um mero antecedente da obra, mas sim um componente constitutivo intrínseco a ela. Para tanto, exploraremos os conceitos de improvisação e gesto criador, especialmente na action painting, e o pensamento do filósofo Luigi Pareyson acerca da “perfeição dinâmica” da obra de arte. Ao compreender a obra como um processo acabado, busca-se mostrar o valor da arte em sua presença viva e contínua, desafiando a ideia de obra estática e imutável.


2. O “fim” da arte tradicional e a dissolução da representação

A modernidade artística inaugura uma crise na concepção clássica da arte como representação do mundo exterior. No trecho analisado, afirma-se que

“Não existe mais separação entre a realidade externa e a realidade do quadro. [...] O que deixou de existir foi a estrutura da representação.”

Tal constatação aponta para a perda do suporte tradicional da pintura e escultura, deslocando o foco da arte para o próprio ato criador. A imagem deixa de ser um reflexo ou uma cópia da realidade, para tornar-se uma presença autônoma, onde o gesto e a matéria ganham autonomia expressiva. Esse movimento corresponde ao fim da arte como mera mimese e ao início de uma arte que privilegia o processo, o movimento e a experimentação.


3. Improvisação: entre o acaso e a criação intencional

A improvisação, apesar de seu caráter aparentemente espontâneo, não se reduz à repetição de fórmulas ou à mera aplicação automática da memória. O texto ressalta que

“A improvisação tem um quê de agressivo que aceita o imprevisto justamente para trabalhá-lo [...] no intuito de submetê-las.”

Assim, a improvisação artística não é um ato de acomodação, mas um empreendimento criativo que acolhe o imprevisto para transformá-lo, refletindo um processo ativo e consciente de criação. Embora a memória e as convenções possam atuar como base para o improviso, este se distancia de um “conjunto de lugares-comuns” para constituir uma dinâmica de confronto e elaboração do novo. Fayga Ostrower, citada no texto, entende a improvisação como uma linguagem que se manifesta na forma da obra, possibilitando ao artista dar forma a sua criação de maneira inédita e concreta.


4. A obra como gesto e processo: o caso da action painting

A action painting exemplifica de forma paradigmática essa nova concepção do gesto como ato criador. Ao falar que o artista “representa na action painting o seu próprio gesto criador”, o texto evidencia a valorização do processo e da ação como elementos centrais da obra:

“Falar que o artista representa na action painting o seu próprio gesto criador significa mostrar o real valor do processo artístico e a sua relação com a obra produzida.”

Nessa perspectiva, a obra não é compreendida apenas como produto final, mas como extensão do gesto e do processo que lhe deu origem. O valor artístico da obra reside também em sua gênese, pois o ato de criação é simultaneamente um processo e um acontecimento presente na obra. O gesto criador, então, não é mera expressão de um impulso imediato, mas a concretização de um movimento que integra memória, improvisação e decisão consciente.


5. Perfeição dinâmica: o pensamento de Luigi Pareyson

Um dos conceitos centrais para compreender a obra como processo é o da “perfeição dinâmica”, desenvolvido pelo filósofo Luigi Pareyson. Segundo ele,

“A perfeição da obra não é imobilidade e estaticidade, mas precisamente acabamento, condução, perfectio, isto é, perfeição dinâmica.”

Para Pareyson, a obra não se reduz a um objeto acabado e fixo, mas é a concretização de um processo orgânico que culmina em seu término, seu amadurecimento. A obra traz em si o processo de sua formação, não como algo passado e separado, mas como parte integrante e atualizada do seu ser:

“A obra inclui em si o processo da sua formação no próprio ato que o conclui [...]”

Ainda, ele destaca que

“Não se forma a obra com ou mediante uma matéria, mas se forma uma matéria, e assim se forma a obra.”

Essa formulação ressalta a indissociabilidade entre matéria e forma na constituição da obra, reforçando que o processo de criação não é a aplicação de um plano sobre uma matéria preexistente, mas a formação simultânea e inseparável de ambos.


6. Consideração dinâmica vs. consideração genética

Pareyson também distingue duas formas de se considerar a obra de arte: a consideração genética e a consideração dinâmica. A primeira busca reconstruir os antecedentes históricos e contextuais da obra, enquanto a segunda focaliza a compreensão da obra no ato de sua realização, em sua autoaprovação estética:

“O processo aparece assim como incluído na própria obra: aplacada, não extinto; consolidado, não enrijecido [...]”

Dessa forma, a obra não é mera soma de eventos históricos, mas presença atual de um processo que se conclui no momento da fruição estética. Essa distinção é fundamental para evitar que a análise da obra se perca numa cronologia externa e para que se mantenha o foco na experiência da obra em sua integralidade.


7. Considerações finais

A reflexão aqui desenvolvida evidencia a importância de se entender a obra de arte contemporânea como um organismo vivo, em que o processo criativo, a improvisação e o gesto do artista não são antecedentes meramente instrumentais, mas componentes inseparáveis da obra. A noção de “perfeição dinâmica” apresentada por Luigi Pareyson oferece uma chave para compreender a obra como presença acabada e ao mesmo tempo aberta, em constante relação com sua gênese e sua materialidade. A action painting, por sua vez, ilustra concretamente essa concepção, ao valorizar o gesto criador como parte fundamental da obra.

Essa perspectiva desafia a ideia tradicional da obra como objeto imóvel e acabado, abrindo espaço para uma concepção mais fluida e orgânica da criação artística, que incorpora o acaso, o improviso e a continuidade do processo. Assim, a obra de arte não é um ponto final, mas um ponto de chegada dinâmico, capaz de integrar passado, presente e possibilidades futuras em sua totalidade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Projeto de História Oral: “A voz ocultada das mulheres nas aulas de História”, texto de Ronaldo Campos

 






Projeto de História Oral: “A voz ocultada das mulheres nas aulas de História”

Ronaldo Campos

Introdução

Este artigo é o resultado do projeto "A voz ocultada das mulheres nas aulas de História", realizado em parceria com o PIBID PUC Minas/História durante o ano letivo de 2017. Nosso objetivo principal foi introduzir novas questões metodológicas e historiográficas no cotidiano das aulas de história do terceiro ano do ensino médio, possibilitando redescobrir o processo histórico a partir de novos objetos e abordagens. A meta era fomentar um contato mais próximo e aprofundado dos alunos com o objeto central da disciplina: o ser humano inserido no tempo e no espaço.

Atualmente, nas novas propostas pedagógicas do ensino de história, o passado distante perdeu parte de sua hegemonia como objeto central da disciplina. Contudo, é importante frisar que os acontecimentos de tempos longínquos não podem ser desprezados, como se fossem material inútil, velho e sem relação com a atualidade. Tais fatos ainda são importantes para a formação do aluno e para o entendimento de todo o processo histórico. O que ocorre é que esses fatos agora dividem espaço com a história do tempo presente.

A metodologia da história oral vem ao encontro dessa nova abordagem. É um importante instrumento educativo por contribuir para a valorização das diversas identidades e culturas, para a inclusão no sistema educacional e para uma representação mais adequada dos vários sujeitos sociais nos livros didáticos.

A história oral é um método de pesquisa que busca registrar as memórias e lembranças de pessoas a partir de recursos eletrônicos em um contexto de diálogo. Ela é destinada a reunir testemunhos, promover análises dos processos sociais atuais e facilitar a compreensão do meio imediato, possibilitando também a elaboração de documentos históricos (fontes) por meio de registros eletrônicos. É um procedimento metodológico qualitativo, entendido como um “recurso moderno usado para a elaboração de registros, documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 17). No entanto, a história oral não deve ser entendida como um ato ou procedimento único que inviabilizaria todos os outros.


Memória e História Oral

Nossa memória não é homogênea ou monolítica. Não é fixa nem estática, nem estável nem permanente. É multifacetada, provisória, fragmentada e em constante reconstrução. Ela não pode ser vista como um simples arquivo mecânico onde são registrados os fatos que vivemos. Pelo contrário, a nossa memória é bastante complexa. Nossas lembranças são muito mais elaborações a partir dos fatos vividos do que o fato em si. Pois, ao lembrarmos de um fato marcante em nossa vida, “os elementos de nossa memória são filtrados e reelaborados conforme as circunstâncias do presente” (SANTIAGO; MAGALHÃES, 2015, p. 36).

Assim, a nossa memória pode ser caracterizada como uma estrutura dinâmica e individual (por ser única) e, ao mesmo tempo, coletiva (uma vez que nos remete às experiências sociais). A memória “é a fonte que abastece as lembranças, que, por sua vez, fundamenta as histórias que contamos” (SANTIAGO; MAGALHÃES, 2015, p. 37). Como afirmou Bosi (2000, p. 39), “a memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento”. O lembrar ou o esquecer significa efetivamente reconstruir ou repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado.

Nesse sentido, por mais clara que possa ser uma lembrança, ela não é a mesma imagem que ocorreu no passado. Isso porque a forma como percebemos o tempo e o mundo foi (e é) transformada junto com nossas ideias e nossos juízos de realidade e de valor.


O Projeto de História Oral

Este projeto foi realizado em três etapas durante o ano letivo de 2017. Tomamos o cuidado de manter a coerência com as propostas e o conteúdo do terceiro ano do ensino médio. A execução se adaptou perfeitamente à rotina da escola e das turmas. A maior parte das atividades ocorreu nos horários destinados às aulas de história. Os alunos foram divididos em grupos de até cinco pessoas. Optamos por trabalhar com apenas quatro turmas (A, B, E e G – turno da manhã) de um total de doze, em virtude dos limites pessoais, técnicos, de tempo e por envolver apenas uma única disciplina. Acreditávamos também que era preciso começar com algo menor para testar suas potencialidades.

Nessas turmas, inicialmente, realizamos uma verificação do conhecimento dos alunos sobre o processo histórico e uma análise crítica do material didático-pedagógico. Isso nos permitiu perceber que, na maior parte das turmas, predominavam concepções tradicionais de história e uma forte tendência à exaltação de grandes nomes.

Para os alunos, com exceções como Cleópatra, Xica da Silva, Princesa Isabel ou Maria Antonieta, a história foi (e ainda é) feita por homens e para homens que, quase sempre, são brancos, de origem europeia e pertencentes à elite dominante. O foco central dessa “história” é a história política, que se fundamenta basicamente nas fontes escritas oficiais e na hipervalorização dos grandes nomes, dos vencedores e dos líderes políticos, em detrimento das questões relativas ao gênero, às minorias e à diversidade sociocultural. Havia a percepção de que a história tinha uma única versão, uma única verdade, como se não houvesse outras interpretações dos mesmos fatos. Tal concepção acarretava, muitas vezes, na diminuição (e até mesmo na anulação) da relevância do protagonismo popular nas análises de determinados eventos históricos.

Diante dessa situação, era importante mostrar aos alunos que o conhecimento histórico, desde as últimas décadas do século XX, passou por grandes transformações. Muitos historiadores buscaram redefinir os objetos e os métodos de trabalho da ciência histórica, o que levou à “redescoberta” dos chamados “ausentes” da História, a partir da utilização de novas fontes de pesquisa. Isso resultou em múltiplas abordagens e no resgate dessas vozes silenciadas, superando assim as dualidades das análises históricas e valorizando as dinâmicas das estruturas sociais e culturais.

A partir desse ponto, e em conjunto com os alunos, elaboramos uma questão para nortear todo o projeto: “É possível reconstruir o passado de um povo a partir da memória e das lembranças individuais e coletivas de seus habitantes?”. Acreditávamos que a resposta era afirmativa, pois a memória, por meio da oralidade, é de fato um poderoso instrumento na construção da história cotidiana de um grupo social. Além disso, a memória “parte de uma realidade presente determinada, de um presente ávido pelo passado, cuja percepção nós sabemos que não nos pertence mais” (BOSI, 2003, p. 20).

A solução dessa questão implicava, necessariamente, uma compreensão mais dinâmica e significativa da história, com a valorização de aspectos sociais e culturais. Isso ampliaria e ressignificaria as vozes e as histórias daqueles que tradicionalmente eram excluídos dos livros didáticos. Assim, ao escrever ou narrar a história dessas pessoas, estamos tirando-as do silêncio a que estavam sentenciadas. Ao mesmo tempo, estamos afirmando que a história não precisa enfatizar apenas o econômico ou o político. A história não é um bloco único e estático; é múltipla e diversa. Na afirmação de Marguerite Yourcenar, “tudo é história!”. Tudo tem a sua história. Pois, como nos explica Perrot (2008), a história não é somente o que acontece – a sequência dos fatos, das mudanças, das revoluções, das acumulações que tecem o devir das sociedades –, mas é também o relato que se faz de tudo isso.

Optamos por um recorte temporal que privilegiou a cidade de Belo Horizonte na segunda metade do século XX. O foco foi a história de vida de mulheres comuns que fizeram parte da população da capital mineira, e cujas histórias tivessem importância na vida e na história dos alunos envolvidos. A escolha das mulheres como objeto de pesquisa teve por objetivo romper com um padrão recorrente na nossa produção historiográfica que, segundo o historiador brasileiro Paulo Rezzutti, apaga, reconta, deturpa ou diminui a participação das mulheres nos grandes (e também nos pequenos) episódios da História.

Por ser algo novo, foi necessário realizar oficinas e aulas expositivas dialogadas para instrumentalizar e familiarizar os alunos com os conceitos, ideias, técnicas e práticas referentes à metodologia da história oral. Durante esse momento, foi possível esclarecer dúvidas, como: “Por que realizar este projeto?”, “Por que ele é importante?”, “Que questões ele poderá solucionar?”, “Que resultados buscamos?” e “Como pretendemos alcançar esses objetivos?”.

Com uma compreensão mais clara da proposta e devidamente orientados, os alunos elaboraram um plano de ação que incluía um projeto e um cronograma. Também definiram o nome da pessoa a ser entrevistada e um texto justificando a escolha. Após o aceite da pessoa, o grupo, com base em sua biografia, elaborou um roteiro para a entrevista (um questionário semiestruturado, com estrutura flexível, aberta e com linguagem e vocabulário adequados ao entrevistado). Por ser um momento-chave, a preparação para a gravação da entrevista envolveu todo o grupo, mas a gravação envolveu diretamente apenas dois alunos. Um ficou encarregado de conduzir o depoimento, enquanto o outro foi responsável pela parte técnica e atividades de apoio.

Ao finalizar a gravação, o grupo começou o processo de transcrição do texto. Por ser algo bastante complexo, esta fase do projeto demandou mais tempo e foi dividida em três momentos. A primeira etapa, a “transcrição absoluta”, buscou reproduzir com fidelidade tudo que aconteceu e foi dito, sem cortes nem acréscimos. Em seguida, foi realizada a conferência do texto, que exigiu ouvir a gravação várias vezes. A escuta da entrevista foi feita simultaneamente à leitura da transcrição para corrigir possíveis erros, conferir a pontuação, localizar omissões ou acréscimos indevidos, podendo realizar entrevistas posteriores para preencher prováveis lacunas ou esclarecer algumas incoerências e inconsistências.

Na segunda fase, a textualização, ocorreu a passagem da linguagem oral para a linguagem escrita sem que houvesse perda da identidade do depoimento. Nesse momento, as perguntas foram eliminadas do texto, assim como os erros gramaticais, palavras sem sentido, sons e ruídos, visando um texto mais claro. Buscou-se o “tom vital” da entrevista, um recurso usado para requalificar a entrevista segundo sua essência, pois cada depoimento possui um sentido geral mais importante, uma espécie de eixo.

Na terceira e última fase, o texto foi apresentado em sua versão final, devidamente autorizado pelo depoente.


Resultados

A utilização da história oral nas aulas regulares do terceiro ano do ensino médio nos permitiu apresentar aos alunos a importância das experiências e dos relatos de pessoas comuns na construção do saber histórico. Isso contribuiu para ressignificar a história estudada (Brasil República e História Geral – séculos XIX-XXI) ao longo do ano letivo, e possibilitou a compreensão da história como um processo dialético e não linear, rompendo com visões mais tradicionais. Além disso, o processo de ensino aprendizagem ocorreu de modo mais dinâmico, colaborando para o protagonismo juvenil em uma perspectiva de sala de aula ampliada.

Homenagem ao professor Albanito

 


Albanito Vaz Júnior é um dos professores andmais queridos e lembrados do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG). As suas aulas e os seus trabalhos são os assuntos principais de qualquer encontro de ex-alunos do Instituto de Educação. Quem pode esquecer dos florilégios meticulosamente pensados e apresentados ao som de valsas no auditório do Instituto? Com o seu jeito único, inspirou centenas de alunas do magistério no Instituto de Educação. Provocou a curiosidade e o amor pela literatura em meninos e meninas do Colétio Batista Mineiro.

Nasceu no ano de 1934 e faleceu em 27 de abril de 2018. Formou em 1957, em letras clássicas pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como educador e professor de língua portuguesa e literatura trabalhou por décadas no Instituto de Educação de Minas Gerais e no Colégio Batista Mineiro. Aponsentou compulsoriamente na rede estadual ao setenta anos de idade, mas continuou lecionando na rede particular de ensino. Contribuiu efetivamente na aprendizagem e na formação de milhares de estudantes. Nos últimos anos de sua vida, exerceu o cargo de diretor do Sindicato dos Professores da rede particular do Estado de Minas Gerais  (Sinpro Minas), na gestão 2016-2020. Publicou importantes artigos na revista do sindicato. Esteve ativamente envolvido nas recentes lutas a favor de uma educação de qualidade e de um país mais justo e soberano.

Como professor sempre se preocupou em transmitir o conhecimento sem esquecer da formação ético-moral dos seus alunos. Conservava a disciplina da sala com muito bom humor e carisma. Foi um professor extremamente engajado, dedicado e apaixonado pelo ato de ensinar. Caracterizado pelos alunos e colegas de trabalho como um homem extremamente culto e dono de grande oratória. Era dono de uma alegria contagiante e sempre estava de braços abertos para acolher os novos alunos ou os novos colegas. Nínguem ficava imune ao conviver com ele. Como pode ser comprovado no depoimento de Selma Medeiros, aluna de Albanito, da turma C, no período 1969-1971, no curso Normal do Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG): “Envelhecer é perder amores e morrer de saudades. E aí, quando você descobre, aos 65 anos, que perdeu um professor do segundo grau, daqueles bem carrasco, que faziam ler e escrever, e contracenar, montar, produzir, dirigir, iluminar, ler, reler escrever. (...) e depois de ouvir uma amiga dizer que o amava você descobre que o amou também. Que passou a vida inteira amando e nem sabia. Descobre ainda que ele é quase imortal pois ele estará em você enquanto puder fazer pelo menos um pouco do que ele nos ensinou. “

Uma Breve Introdução à História da Educação em Minas Gerais - texto de Ronaldo Campos

 

Uma Breve Introdução à História da Educação em Minas Gerais

Texto de Ronaldo Campos



Desde o século XVIII, na Europa, a instituição escolar já era vista como um importante investimento social. Era considerada o espaço por excelência para a aprendizagem de um novo ethos social, de novas condutas, de saberes escolarizados e de códigos nacionais e patrióticos. Diferentemente do que ocorria no Velho Mundo, na Capitania de Minas, até meados do século XVIII, não existia nenhum tipo de escola ou um projeto de implantação de um sistema escolar.

Essa situação pode ser explicada por alguns fatores:

  • A colonização tardia, iniciada apenas com a descoberta do ouro na região, no final do século XVII e começo do século XVIII.

  • A proibição imposta pela coroa portuguesa para o estabelecimento de ordens religiosas na capitania, o que, consequentemente, inviabilizou a ação pedagógica dos jesuítas e a criação de colégios em Minas nessa época.

  • O pequeno número de mulheres no início do ciclo de mineração, o que indicava a presença de poucas famílias.

  • A própria constituição da população da região, ou seja, um povo mais interessado no enriquecimento fácil e rápido, gente ruda, desprovida dos valores da cultura letrada e sem interesse na educação dos filhos.

Apesar da não existência de uma escola institucionalizada oficialmente na região, não houve a inexistência total de práticas educativas informais (ou não escolarizadas). Nesse período, existiam em Minas as chamadas “escolas domésticas”, onde se encontravam mães alfabetizadoras e tios-padres encarregados do ensino das primeiras letras (instrução elementar). Em seguida, os jovens eram encaminhados para os educandários jesuítas do Rio de Janeiro ou da Bahia, e mais tarde, podiam dar continuidade aos seus estudos na metrópole portuguesa, de onde retornavam como padres ou doutores.

Essa situação começou a mudar a partir de 1750, com a fundação do Seminário de Mariana, que, durante muito tempo, foi o único educandário para a juventude mineira. Sua função era ampliar o número de clérigos e preparar os jovens para os cursos de Coimbra e outras cidades portuguesas. No final do século XVIII, outras escolas também foram criadas, embora fossem estabelecimentos menores e com objetivos modestos, como o Colégio do Semidouro (ou colégio dos padres Osorios), destinado a meninos e à instrução de nível secundário; o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, para moças; e o Recolhimento São João da Chapada, também para moças, em Minas Novas. Em 1835, os padres lazaristas fundaram, no terreno da Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Serra do Caraça, o famoso colégio, onde mais tarde surgiu uma escola apostólica e um seminário.

As reformas pombalinas (1759-1772) culminaram com a expulsão dos jesuítas, retirando deles o comando da educação. Certamente, para aquelas cidades brasileiras que possuíam centros escolares conduzidos por esses religiosos, tal medida significou a destruição do único sistema de ensino existente no país. Como em Minas Gerais não existiam tais escolas, essa medida não teve grande repercussão, pois as reformas não inviabilizaram a permanência da oferta de estudos nos seminários e colégios de outras ordens religiosas que não a dos jesuítas (como os Oratorianos, Franciscanos e Carmelitas).

As transformações propostas pelo Marquês de Pombal também incluíam a criação das “aulas régias ou avulsas de Latim, Grego, Filosofia e Retórica”, que eram autônomas e isoladas, com um professor único e um conteúdo que não tinha qualquer articulação com os outros. Quase trinta anos depois da promulgação dessa lei, o Estado português criou o cargo de Diretor Geral dos Estudos que, em nome do Rei, deveria nomear professores e fiscalizar sua ação na colônia. Contudo, essa medida não produziu o efeito desejado, não sendo suficiente para garantir a continuidade e a expansão das escolas brasileiras, deixando a educação estagnada no Brasil.

Visando solucionar esse problema, em 1772, foi criado o “subsídio literário” com o propósito de manter o ensino primário e secundário. Entretanto, o ensino no Brasil permaneceu disperso e fragmentado, baseado em aulas isoladas que eram ministradas por professores leigos e mal preparados.


A Transição para o Século XX: O Início da Modernização

Apesar de toda essa situação adversa, a escola e, consequentemente, a educação como um todo, no decorrer do século XIX, eram vistas como responsáveis pela formação do cidadão e pela educação dos comportamentos coletivos. Essas “novas expectativas” e exigências trouxeram a necessidade de uma reformulação profunda de todo o sistema educacional.

Todas essas mudanças, que ocorreram inicialmente na Europa, repercutiram também no Brasil, gerando um amplo debate sobre a importância da educação no processo de transformação sociopolítica e econômica do país. Esse debate resultou em uma legislação extensa e minuciosa, que tinha por objetivo normatizar o sistema educacional brasileiro e definir políticas públicas para o setor. A primeira legislação da instrução primária em Minas Gerais é datada de 28 de março de 1835 (Lei nº 13), que estruturou a organização da instrução pública elementar e instituiu a obrigatoriedade de frequência às aulas, além de criar as bases para as primeiras escolas de formação de professores.

Durante a passagem do século XIX para o XX, nos primeiros anos da República Velha, o Brasil foi tomado pela crença no poder transformador da educação. O processo de escolarização das crianças fazia parte de uma visão modernizante, culta e civilizada da nação brasileira. A historiadora Maria Alveni Barros Vieira nos diz que, para políticos e autoridades da época, era importantíssimo “reconstruir o sentimento nacional do povo brasileiro, educando o caráter das novas gerações. Justifica-se, desta maneira, a preocupação em preparar melhor as crianças do ponto de vista intelectual e transformá-las em adultos marcados pelo processo de escolarização”.

Apesar de todo o empenho e mobilização política, pouca coisa de fato ocorreu. O ensino dos primeiros anos da educação básica não era um direito garantido a todos e muito menos uma realidade para a maioria das cidades. Por exemplo, no antigo arraial do Curral Del Rei, no final do século XIX, a estrutura educacional se resumia a duas escolas dirigidas pelas professoras Lídia Angélica Vaz de Melo e Maria Francisca de Matos Silveira. Elas foram transferidas logo no início da construção da nova capital.

Em 1900, quatro escolas foram removidas de Ouro Preto para a nova capital. Em 1903, foram criadas na periferia da cidade as chamadas “escolas coloniais”: nas colônias Carlos Prates, Afonso Pena, Américo Werneck (ex-Córrego da Mata), Bias Fortes e Adalberto Ferraz. Tais escolas foram instituídas pela Lei nº 281 de 1899, mantidas no Decreto nº 1960 de 1906, e permaneceram no Decreto nº 3.191 de 9 de junho de 1911.


João Pinheiro e a Criação dos Grupos Escolares

Durante sua gestão, João Pinheiro promoveu uma ampla reforma no sistema educacional de Minas Gerais. Em 1906, por meio da Lei nº 439 de 28 de setembro, o governo promoveu uma importante reforma do ensino no estado, destacando-se a criação da Escola Normal Modelo da capital e dos primeiros grupos escolares. Anteriormente, os professores ministravam suas aulas em salas heterogêneas, onde se reuniam alunos das quatro classes do ensino fundamental.

É interessante observar que, em um dos artigos desta lei de 1906, aparece pela primeira vez o termo “grupo escolares”. Estes podem ser definidos como estabelecimentos de ensino onde a instrução primária ocorre. Nessas escolas, a educação (pela primeira vez na história) é gratuita e mantida pelo governo do estado.

De acordo com a historiadora Ana Cristina Pereira Lage, os primeiros grupos escolares no Brasil surgiram em São Paulo, no final do século XIX, quando as “escolas isoladas” que existiam em uma determinada área foram agrupadas. Os primeiros grupos escolares representaram uma mudança radical no cenário nacional ao introduzir uma nova proposta de organização do tempo e do espaço escolar com elementos da escola graduada (ao utilizar a seriação como critério de organização dos alunos), uma proposta que surgiu nessa mesma época na Europa e nos Estados Unidos, visando a implantação de uma educação popular.

Saviani, no livro “O legado educacional do século XX no Brasil”, afirma que tais instituições escolares são elementos típicos das cidades. Pois, no interior do país, predominantemente rural, as escolas isoladas permaneceram de forma hegemônica por mais tempo.

Nos grupos escolares, os alunos permaneciam por quatro anos, tendo acesso a um programa enciclopédico com disciplinas que buscavam garantir uma educação integral, ou seja, desenvolver o lado intelectual, físico e ético-moral do aluno. Utilizava-se o método intuitivo, que recorria a inúmeros materiais didáticos, laboratórios e museus. A disciplina era extremamente rígida, exigindo dos alunos a assiduidade, o asseio, a ordem e a obediência, entre outros.

O primeiro grupo escolar da capital foi o Grupo Escolar Barão do Rio Branco, ainda em 1906. A partir desse ano, os outros grupos escolares criados em Belo Horizonte não tinham um nome específico. Quando eram criados, recebiam uma denominação numérica: “primeiro grupo escolar”, “segundo grupo escolar”, e assim por diante. Após alguns anos, esses estabelecimentos de ensino receberam nomes de pessoas célebres da história mineira. Como foi dito, o primeiro grupo escolar homenageou o Barão do Rio Branco; o segundo, Afonso Pena.

Devemos lembrar que os colégios religiosos foram instalados logo a partir da mudança da capital, obedecendo à demanda dos que ali se estabeleceram. Em 1902, existiam onze colégios, entre os quais se destacam a Escola São Thomaz (na rua Maranhão), a Escola Mista (na rua Cláudio Manuel) e a Escola do Sexo Masculino (na rua Rio de Janeiro), entre outras.

A história da educação em Minas Gerais, como vimos, é um mosaico complexo de influências externas, desafios internos e uma busca contínua por modernização. A transição das escolas domésticas e seminários para os grupos escolares e colégios religiosos mostra a evolução de uma sociedade que, mesmo com obstáculos, compreendeu a educação como pilar fundamental para o progresso e a cidadania. Este legado histórico continua a moldar o presente e inspira as futuras gerações a valorizarem o conhecimento como um bem inestimável.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025


Ronaldo Campos é pesquisador e docente com atuação interdisciplinar nas áreas de história, filosofia e arte, radicado em Belo Horizonte. Graduado em História e Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concluiu mestrado em Filosofia da Arte e Estética, com dissertação sobre Luigi Pareyson. Autor do livro Histórias Inspiradoras e de diversos artigos acadêmicos, traduziu também textos de Pareyson ainda não publicados.

Atuou por quase vinte anos no Centro Universitário UniBH, na graduação e na pós-graduação, e participou ativamente do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), onde foi diretor de programação e eventos. Integra experiência de organização de sessões comentadas, cursos e exposições em instituições como a Fundação Clóvis Salgado e o Centro Cultural da UFMG.

Sua pesquisa articula teoria estética e práticas artísticas contemporâneas, com ênfase na teoria da formatividade e seus desdobramentos na produção cultural.


 

domingo, 25 de maio de 2025

PROJETO ÍNTERDISCIPLINAR: "Memórias que Constroem o Futuro: Despertando o Sentido de Pertencimento à Escola"

 

 



Trabalho elaborado pelos alunos que participaram desse projeto


Projeto elaborado por Ronaldo Campos, professor e pesquisador de História, para o turno da tarde do Instituto de Educação de Minas Gerais (prédio da rua Guajajaras). Apresentado em fevereiro de 2024

       

 1-INTRODUÇÃO           

 

 

A escola é mais do que um local de ensino. É um espaço de convivência, aprendizado e desenvolvimento, onde sonhos são nutridos e futuros são moldados. O Instituto de Educação de Minas Gerais\ Prédio Guajajaras acolhe diariamente centenas de alunos nos seus quatro andares. Como instituição educacional, o IEMG possui um histórico com diferentes trabalhos voltados para a temática da preservação e educação patrimonial. Isto, em virtude, da instituição ocupar desde o início do século XX um prédio de grande valor histórico e arquitetônico. No entanto, com o incêndio ocorrido em março de 2023 e, consequente, transferência para o prédio da rua Guajajaras (edifício alugado para locar o ensino médio do Instituto de Educação), uma série de problemas e desafios relacionados a manutenção e preservação do edifício se colocou como ordem do dia. De forma recorrente, no turno da tarde, observamos atitudes inadequadas dos alunos. Como por exemplo, a falta de cuidado e zelo com as dependências da escola e com as áreas comuns do prédio (como por exemplo, os elevadores, escadas e banheiros) que implicou na degradação do patrimônio físico. Além disso, no cotidiano escolar, também pode ser verificado a falta de respeito com o próximo e com alguns professores e funcionários;

Diante dessa realidade, o projeto "Memórias que Constroem o Futuro: Despertando o Sentido de Pertencimento à Escola" se mostra como uma iniciativa interdisciplinar para promover a educação patrimonial e o cuidado com o espaço escolar. Estimulando a participação do corpo discentes no processo de preservação do espaço físico, promovendo a responsabilidade individual e coletiva. Este trabalho de conscientização dos estudantes é voltado para mudança de comportamento e desenvolvimento da prática da cidadania entre os estudantes, tornando-os mais conscientes dos seus atos e das consequências que os envolvem. Percebendo a importância do patrimônio escolar, material e imaterial na constituição da identidade cultural e da memória coletiva da cidade de Belo Horizonte.

Nesse processo, é importante perceber que o conceito de patrimônio não está restrito apenas aos bens que herdamos de nossos antepassados, este patrimônio também é produzido no presente, como expressão de cada geração. A Educação Patrimonial por meio de um permanente diálogo entre o presente e o passado, na perspectiva do futuro, pretende realizar um trabalho vislumbrando um mundo melhor, mais digno e de efetiva cidadania.


 

2- OBJETIVOS                 

 

Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se se respeitar promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. (Competência geral 9)

 

Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (Competência geral 10)

 

Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. (Competência específica 5- Ciências Humanas)

 

Participar, pessoal e coletivamente, do debate público de forma consciente e qualificada, respeitando diferentes posições, com vistas a possibilitar escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. (Competência 6- Ciências Humanas)

 

Utilizar diferentes linguagens (artísticas, corporais e verbais) para exercer, com autonomia e colaboração, protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica, criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam os Direitos Humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, em âmbito local, regional e global. (II. Competência específica 3- Linguagens)

Analisar objetos da cultura material e imaterial como suporte de conhecimentos, valores, crenças e práticas que singularizam diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço. (EM13CHS104)

 

Compreender e analisar os fundamentos da ética em diferentes culturas, identificando processos que contribuem para a formação de sujeitos éticos que valorizem a liberdade, a autonomia e o poder de decisão (vontade). (EM13CHS501)

 

Participar de processos de produção individual e colaborativa em diferentes linguagens (artísticas, corporais e verbais), levando em conta suas formas e seus funcionamentos, para produzir sentidos em diferentes contextos. (EM13LGG301)

 


 

3- JUSTIFICATIVA               

 

O “Projeto Interdisciplinar: "Memórias que Constroem o Futuro: Despertando o Sentido de Pertencimento à Escola" busca desenvolver ações de Educação Patrimonial em um contexto específico, a escola, considerando as características e necessidades da comunidade em questão. Através de uma abordagem interdisciplinar, integradora e participativa, este projeto busca sensibilizar a comunidade para a importância do patrimônio cultural, reconhecendo-o como um legado histórico e um bem social a ser preservado. Ao promover o conhecimento e a valorização dos diferentes bens patrimoniais, pertencentes ao Instituto de Educação Minas Gerais (IEMG), poderemos estimular a conservação, o uso adequado dos espaços e instrumentos. Fortalecendo o sentimento de pertencimento e a identidade cultural, conectando os indivíduos ao seu passado, presente e futuro. Fomentando o desenvolvimento local sustentável, utilizando o patrimônio como um recurso para o turismo cultural, a educação e a geração de renda.

A escolha do tema se justifica pela relevância da Educação Patrimonial para a construção de uma sociedade mais justa, crítica e consciente. O patrimônio cultural, quando valorizado e preservado, torna-se um poderoso instrumento de transformação social, capaz de promover a coesão social e o respeito à diversidade cultural. Fomentando o desenvolvimento local sustentável. Estimulando a criatividade e a inovação. Fortalecendo a cidadania e a participação social.

Desenvolver uma educação calcada no respeito e na preservação dos bens materiais e imateriais a partir de abordagens interdisciplinares permitirá no futuro promover a valorização e a preservação do patrimônio cultural, material e imaterial, em prol da construção de uma sociedade mais justa, crítica e consciente. Através da sensibilização e do engajamento da comunidade, o patrimônio se torna um instrumento de transformação social, capaz de fortalecer a identidade cultural, fomentar o desenvolvimento local e promover a cidadania. Em suma, acreditamos que a partir deste projeto de Educação Patrimonial poderemos contribuir para a valorização e a preservação do patrimônio cultural, reconhecendo-o como um direito fundamental e um instrumento de transformação social. Através da educação, da pesquisa e da ação social, busca-se construir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável para a comunidade.

 

 

 

 

        


4- METODOLOGIA                 

 

No Projeto Interdisciplinar: "Memórias que Constroem o Futuro: Despertando o Sentido de Pertencimento à Escola", optamos por adotar uma abordagem interdisciplinar que tem por objetivo integrar as diversas áreas do conhecimento (História, Geografia, Artes, Língua Portuguesa, Matemática, Física, Biologia e Química, Educação Física) com as disciplinas de itinerários formativos e eletivas (Redação para o Enem, Educação Financeira, Humanidades, Introdução ao Mundo do Trabalho, Projeto de Vida, Saberes da Natureza, Tecnologia da Inovação, Núcleo de Inovação Matemática, Práticas Comunicativas e Criativas), visando uma compreensão abrangente do tema.

A metodologia empregada faz parte do grupo das metodologias ativas. Aprendizagem baseada em projetos, pesquisa, resolução de problemas, debates, jogos educativos e visitas guiadas. Em virtude desse fato, é de suma importância uma participação ativa dos alunos, ou seja, durante todo o processo será exigido o protagonismo na construção do conhecimento e na tomada de decisões pelo corpo discente. O processo de avaliação deve ser pensado a partir da avaliação contínua que exige um acompanhamento do processo de aprendizagem individual e coletiva.

Para a realização do projeto, os professores poderão trabalhar por área do conhecimento (sempre relacionando esta área com as respectivas disciplinas eletivas e de itinerários formativas de cada uma das áreas). Cada um dos professores que formam a área do conhecimento ficará responsável por uma turma específica. Desenvolvendo atividades a partir dos objetivos apresentados neste projeto.

 

Propostas de ações (para todas as turmas)

1.        Despertando a Consciência: – Texto de João Cabral De Melo Neto

2.        SENSIBILIZAÇÃO A PARTIR DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

Primeiro Momento: apresentação do projeto e seus objetivos aos alunos. (em todas as turmas simultaneamente)

Segundo Momento: visita guiada ao prédio da escola, com foco em sua história e arquitetura. Mostrando também os principais problemas que inviabilizaram as aulas do ensino médio no prédio centenário.

Objetivo da visita guiada: incentivar a participação dos alunos na preservação do prédio e na construção de um ambiente acolhedor

 

Propostas de atividades para cada uma das áreas de conhecimento

Área de Linguagens: Dialogo Aberto

Ação: criar um comitê de alunos para discutir ideias e soluções para a revitalização do espaço. Os alunos devem elaborar propostas de ações para conservar o prédio e promover sua valorização junto a comunidade escolar. Além de promover campanhas de conscientização sobre a importância da preservação do patrimônio público.

·              Esse comitê no final do projeto pode ser transformado em uma Brigada Patrimonial, onde os alunos voluntários se tornam guardiões do prédio, monitorando e conscientizando sobre o uso adequado dos espaços.

 

Produto: produção de textos: produção de um blog ou site do projeto, confecção de cartazes, placas de aviso com informações relacionadas aos temas trabalhados, a fim de garantir a conscientização dos estudantes quanto a importância da preservação dos espaços escolares. Além de materiais de divulgação em redes sociais como Podcasts, áudios, conteúdos produzidos no CANVA, Tik Tok.

 

Área – Matemática: Desvendando os Segredos do Prédio da rua Guajajaras

Ação: Mergulhar na história do prédio da escola através da matemática, explorando conceitos geométricos, proporções e medidas. O objetivo dessa proposta é desenvolver nos alunos habilidades matemáticas de forma contextualizada e interdisciplinar. Ao mesmo tempo, que se valoriza o patrimônio histórico e cultural do prédio, promovendo sua preservação

Materiais: Trena ou fita métrica; Compasso e régua; Papel e lápis; Calculadora; Computador com acesso à internet (opcional)

A missão investigativa na área de matemática deve promover a exploração do prédio. Os alunos serão divididos em grupos. Cada um deles deve assumir o papel de "detetives matemáticos". Munidos de trenas e réguas, os detetives medem: o comprimento, largura e altura de diferentes cômodos, como salas de aula, biblioteca, corredores etc.; a altura de portas, janelas e outros elementos arquitetônicos; o diâmetro de colunas e pilares; a distância entre diferentes pontos do prédio. Em seguida, deverá ser realizado um registro bem detalhado. Os alunos deverão anotar as suas descobertas em tabelas e desenhos, criando um mapa detalhado do prédio com medidas precisas. Com base nas medidas coletadas, os grupos resolvem desafios matemáticos, como por exemplo: calcular a área e o perímetro de diferentes cômodos; determinar a proporção entre a altura e a largura das janelas, etc.

 

Área – Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: construindo uma escola ideal

 

Esta atividade busca envolver os estudantes na construção de uma escola ideal, utilizando conhecimentos de história, geografia, sociologia e filosofia para repensar o espaço educacional e o processo de aprendizagem. Desenvolvendo e promovendo habilidades de pesquisa, análise crítica, trabalho em equipe, comunicação e criatividade. Além de produzir uma participação dos alunos na construção de um ambiente educacional mais inclusivo, sustentável e inovador.

 

Ação: sonhando com uma escola ideal

Atividades: ação 1: diálogos Inspiradores - debates em sala de aula sobre como seria a escola ideal, considerando aspectos como infraestrutura, métodos de ensino, tecnologias, gestão e valores.

Ação 2: mapeamento de desejos: elaboração e aplicação de questionários e pesquisas online para identificar as necessidades e expectativas dos alunos em relação à escola ideal. Nesta parte do trabalho, os alunos deverão estabelecer uma comparação da escola ideal com a escola que nós temos: quais são as diferenças e semelhanças entre elas? O que deveria ser feito para que o IEMG  fosse igual a escola idealizada?

Produto: O mural dos nossos sonhos: criação e confecção de um mural ou painel informativa e colaborativo com fotos, desenhos e frases que ilustram a escola ideal.

 

Área – Ciências da Natureza

 

análise da estrutura física do prédio, estudo da iluminação e ventilação dos ambientes. Mergulhar nos princípios da física, da química e da biologia para entender a resistência dos materiais utilizados no prédio da escola, como drywall, ar condicionado, extintores de incêndio e elevadores. Tendo por objetivo principal promover junto ao corpo discente ações que garantam a sua segurança e a conservação do prédio, conscientizando os estudantes sobre a importância da manutenção e do uso responsável dos seus recursos.

Cada um dos grupos poderá investigar um material específico, como por exemplo, o drywall: pesquisar a sua composição, propriedades, resistência à compressão, tração e flexão, durabilidade, proteção contra fogo e umidade, e impacto ambiental. Pesquisando também: o ar condicionado – os seus componentes, funcionamento, princípios da termodinâmica, eficiência energética, impacto ambiental e medidas para reduzir o consumo de energia. Os elevadores: pesquisando o seu sistema de funcionamento, princípios da física (força, movimento, aceleração), segurança, manutenção preventiva, normas técnicas e tecnologias inovadoras.

 

Produto final: Diálogo Aberto, organizar um debate sobre a importância da resistência dos materiais para a segurança e a conservação do prédio, a responsabilidade individual e coletiva no uso dos recursos e as alternativas para reduzir o impacto ambiental.

Os resultados finais da pesquisa e do debate poderão ser apresentados em um blog e\ou em um podcast criados pelos próprios alunos para divulgar o projeto e seus resultados.

 

 

Divulgação dos trabalhos produzidos:

·              Publicação dos melhores trabalhos no site da escola e nas redes sociais.

·              Elaboração de um folder informativo sobre o patrimônio escolar para ser distribuído aos alunos e pais.

 

 

 

 


 

6- CRONOGRAMA  

 

Semana de preparação: de 01\03\2024 a 07\03\2024

  • Apresentar o projeto para os professores
  • Escolher os professores para cada uma das salas do primeiro ano do Novo Ensino Médio

Semana de Apresentação: de 11\03\2024 a 15\03\2024

  • Apresentação do texto “Tecendo manhãs” (todas as turmas)
  • Apresentação, pelo professor responsável pela turma, do projeto. Destacando os objetivos, as propostas de atividades a serem desenvolvidas.
  • O professor responsável deverá dividir a sala em grupos[1] e distribuir as tarefas

 

    • É importante lembrar que os trabalhos deverão ser desenvolvidos a partir de atividades em classe, sob orientação do professor responsável pela turma, com a coorientação dos demais docentes das disciplinas que compõem a grande curricular da turma, bem como em atividades de estudos e pesquisas realizados fora de sala de aula.

Período de desenvolvimento de trabalhos: de 18\03\2024 a 05\04\2024

  • Realização da atividade de sensibilização: visita guiada ao prédio da escola, com foco em sua história e arquitetura. Mostrando também os principais problemas que inviabilizaram as aulas do ensino médio no prédio centenário.

Professor responsável pela turma acompanhado de outro professor (escolhido de acordo com o horário das aulas da turma)

  • Acompanhamento e orientação das atividades propostas (Professor responsável pela turma)

Finalização e apresentação dos resultados: 10\04\2024 a 15\03\2024

Apresentação dos trabalhos dos alunos. O trabalho final deverá ser entregue obedecendo à data estipulada no cronograma. Não serão aceitos trabalhos, após a data prevista.

O período para a apresentação final dos trabalhos, acontecerá em data previamente marcada. Todos os alunos devem estar presentes sob pena de perda de pontos na apresentação. 


7- AVALIAÇÃO

 

 

O ato de avaliar é inerente ao dia a dia de todas as pessoas em suas mais variadas atividades, seja de modo intencional ou não, até nas atividades mais simples, todos estamos sujeitos a alguma forma de julgamento, de confrontação ou de análise. No processo formal da educação, a avaliação é uma etapa importantíssima. Contudo, é importante lembrar que em cada momento do processo de aprendizagem do estudante, o professor tem que ter uma estratégia para que os seus alunos cheguem onde precisam chegar. Por isto, precisamos ensinar e não apenas mostrar ao aluno o que ele errou ou o que ele ainda não sabe. Pois,

 

A avaliação atravessa o ato de planejar e de executar; por isso, contribui em todo o percurso da ação planificada. A avaliação se faz presente não só na identificação da perspectiva político social, como também na seleção de meios alternativos e na execução do projeto, tendo em vista a sua construção. (...) A avaliação é uma ferramenta da qual o ser humano não se livra. Ela faz parte de seu modo de agir e, por isso, é necessário que seja usada da melhor forma possível (LUCKESI, 2002, p.118).

 

De fato, a avaliação não pode ficar restrita apenas nas provas aplicadas no final do bimestre letivo. Este “tipo de avaliar” (denominada de classificatória) é muito excludente e oculta a aprendizagem. Neste sentido, a avaliação será realizada aqui de modo processual (também chamada de avaliação formativa ou contínua), onde, serão combinados vários instrumentos avaliativos para mensurar mais assertivamente os diversos aspectos do processo de ensino-aprendizado. Neste processo, a avaliação buscará identificar se o aluno realmente está conseguindo aprender a partir do processo metodológico praticado e de base para os feedbacks.

 

 


 

8- REFERÊNCIAS..........................................................................................

 

 

BARROS, José D’Assunção. Memória e história: uma discussão conceitual. Tempos Históricos, vol. 15. 2011. P 317-343.

 

História ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz. História: A arte de inventar o passado. Bauru, SP: EDUSC, 2007.

 

LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História novos problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.

 

LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre. História novas abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.


 

9- ANEXOS                                                                                                       

 

Tecendo a manhã

 

João Cabral de Melo Neto

 

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele 

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

 

E se encorpando em tela, entre todos, 

se erguendo tenda, onde entrem todos, 

se entretendendo para todos, no toldo 

(a manhã) que plana livre de armação. 

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo 

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

 



[1]  Os Trabalhos serão desenvolvidos, obrigatoriamente, em grupos de no mínimo 05 e no máximo 08 alunos participantes, sem interferência prévia dos professores ou gestores da instituição no que se refere a manutenção de seus membros, cabendo aos alunos a responsabilidade pela manutenção de um grupo solidário, ético e responsável para com suas atividades acadêmicas.

 


Exemplos de trabalho que foram produzidos nesse projeto