Artigo: Perfeição
dinâmica e gesto criador: a obra de arte como processo e presença
Texto escrito por Ronaldo Campos
1. Introdução
O século XX trouxe
consigo uma profunda transformação nos modos de conceber a arte e sua produção.
Rompendo com os paradigmas da representação tradicional, a arte contemporânea
passou a valorizar processos, gestos e experiências que escorrem entre a matéria
e a forma. O gesto do artista, a improvisação e o processo criativo passaram a
ser tão fundamentais quanto o objeto artístico resultante. Este artigo tem como
objetivo analisar a obra de arte como um organismo dinâmico, em que o processo
de criação não é um mero antecedente da obra, mas sim um componente
constitutivo intrínseco a ela. Para tanto, exploraremos os conceitos de
improvisação e gesto criador, especialmente na action painting, e o pensamento
do filósofo Luigi Pareyson acerca da “perfeição dinâmica” da obra de arte. Ao
compreender a obra como um processo acabado, busca-se mostrar o valor da arte
em sua presença viva e contínua, desafiando a ideia de obra estática e
imutável.
2. O “fim” da arte
tradicional e a dissolução da representação
A modernidade artística
inaugura uma crise na concepção clássica da arte como representação do mundo
exterior. No trecho analisado, afirma-se que
“Não existe mais
separação entre a realidade externa e a realidade do quadro. [...] O que deixou
de existir foi a estrutura da representação.”
Tal constatação aponta
para a perda do suporte tradicional da pintura e escultura, deslocando o foco
da arte para o próprio ato criador. A imagem deixa de ser um reflexo ou uma
cópia da realidade, para tornar-se uma presença autônoma, onde o gesto e a matéria
ganham autonomia expressiva. Esse movimento corresponde ao fim da arte como
mera mimese e ao início de uma arte que privilegia o processo, o movimento e a
experimentação.
3. Improvisação: entre o
acaso e a criação intencional
A improvisação, apesar de
seu caráter aparentemente espontâneo, não se reduz à repetição de fórmulas ou à
mera aplicação automática da memória. O texto ressalta que
“A improvisação tem um
quê de agressivo que aceita o imprevisto justamente para trabalhá-lo [...] no
intuito de submetê-las.”
Assim, a improvisação
artística não é um ato de acomodação, mas um empreendimento criativo que acolhe
o imprevisto para transformá-lo, refletindo um processo ativo e consciente de
criação. Embora a memória e as convenções possam atuar como base para o improviso,
este se distancia de um “conjunto de lugares-comuns” para constituir uma
dinâmica de confronto e elaboração do novo. Fayga Ostrower, citada no texto,
entende a improvisação como uma linguagem que se manifesta na forma da obra,
possibilitando ao artista dar forma a sua criação de maneira inédita e
concreta.
4. A obra como gesto e
processo: o caso da action painting
A action painting
exemplifica de forma paradigmática essa nova concepção do gesto como ato
criador. Ao falar que o artista “representa na action painting o seu próprio
gesto criador”, o texto evidencia a valorização do processo e da ação como
elementos centrais da obra:
“Falar que o artista
representa na action painting o seu próprio gesto criador significa mostrar o
real valor do processo artístico e a sua relação com a obra produzida.”
Nessa perspectiva, a obra
não é compreendida apenas como produto final, mas como extensão do gesto e do
processo que lhe deu origem. O valor artístico da obra reside também em sua
gênese, pois o ato de criação é simultaneamente um processo e um acontecimento
presente na obra. O gesto criador, então, não é mera expressão de um impulso
imediato, mas a concretização de um movimento que integra memória, improvisação
e decisão consciente.
5. Perfeição dinâmica: o
pensamento de Luigi Pareyson
Um dos conceitos centrais
para compreender a obra como processo é o da “perfeição dinâmica”, desenvolvido
pelo filósofo Luigi Pareyson. Segundo ele,
“A perfeição da obra não
é imobilidade e estaticidade, mas precisamente acabamento, condução, perfectio,
isto é, perfeição dinâmica.”
Para Pareyson, a obra não
se reduz a um objeto acabado e fixo, mas é a concretização de um processo
orgânico que culmina em seu término, seu amadurecimento. A obra traz em si o
processo de sua formação, não como algo passado e separado, mas como parte integrante
e atualizada do seu ser:
“A obra inclui em si o
processo da sua formação no próprio ato que o conclui [...]”
Ainda, ele destaca que
“Não se forma a obra com
ou mediante uma matéria, mas se forma uma matéria, e assim se forma a obra.”
Essa formulação ressalta
a indissociabilidade entre matéria e forma na constituição da obra, reforçando
que o processo de criação não é a aplicação de um plano sobre uma matéria
preexistente, mas a formação simultânea e inseparável de ambos.
6. Consideração dinâmica
vs. consideração genética
Pareyson também distingue
duas formas de se considerar a obra de arte: a consideração genética e a
consideração dinâmica. A primeira busca reconstruir os antecedentes históricos
e contextuais da obra, enquanto a segunda focaliza a compreensão da obra no ato
de sua realização, em sua autoaprovação estética:
“O processo aparece assim
como incluído na própria obra: aplacada, não extinto; consolidado, não
enrijecido [...]”
Dessa forma, a obra não é
mera soma de eventos históricos, mas presença atual de um processo que se
conclui no momento da fruição estética. Essa distinção é fundamental para
evitar que a análise da obra se perca numa cronologia externa e para que se
mantenha o foco na experiência da obra em sua integralidade.
7. Considerações finais
A reflexão aqui
desenvolvida evidencia a importância de se entender a obra de arte
contemporânea como um organismo vivo, em que o processo criativo, a
improvisação e o gesto do artista não são antecedentes meramente instrumentais,
mas componentes inseparáveis da obra. A noção de “perfeição dinâmica”
apresentada por Luigi Pareyson oferece uma chave para compreender a obra como
presença acabada e ao mesmo tempo aberta, em constante relação com sua gênese e
sua materialidade. A action painting, por sua vez, ilustra concretamente essa
concepção, ao valorizar o gesto criador como parte fundamental da obra.
Essa perspectiva desafia
a ideia tradicional da obra como objeto imóvel e acabado, abrindo espaço para
uma concepção mais fluida e orgânica da criação artística, que incorpora o
acaso, o improviso e a continuidade do processo. Assim, a obra de arte não é um
ponto final, mas um ponto de chegada dinâmico, capaz de integrar passado,
presente e possibilidades futuras em sua totalidade.
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