Projeto de História Oral: “A voz ocultada das mulheres nas aulas de História”
Ronaldo Campos
Introdução
Este artigo é o resultado do projeto "A voz ocultada das mulheres nas aulas de História", realizado em parceria com o PIBID PUC Minas/História durante o ano letivo de 2017. Nosso objetivo principal foi introduzir novas questões metodológicas e historiográficas no cotidiano das aulas de história do terceiro ano do ensino médio, possibilitando redescobrir o processo histórico a partir de novos objetos e abordagens. A meta era fomentar um contato mais próximo e aprofundado dos alunos com o objeto central da disciplina: o ser humano inserido no tempo e no espaço.
Atualmente, nas novas propostas pedagógicas do ensino de história, o passado distante perdeu parte de sua hegemonia como objeto central da disciplina. Contudo, é importante frisar que os acontecimentos de tempos longínquos não podem ser desprezados, como se fossem material inútil, velho e sem relação com a atualidade. Tais fatos ainda são importantes para a formação do aluno e para o entendimento de todo o processo histórico. O que ocorre é que esses fatos agora dividem espaço com a história do tempo presente.
A metodologia da história oral vem ao encontro dessa nova abordagem. É um importante instrumento educativo por contribuir para a valorização das diversas identidades e culturas, para a inclusão no sistema educacional e para uma representação mais adequada dos vários sujeitos sociais nos livros didáticos.
A história oral é um método de pesquisa que busca registrar as memórias e lembranças de pessoas a partir de recursos eletrônicos em um contexto de diálogo. Ela é destinada a reunir testemunhos, promover análises dos processos sociais atuais e facilitar a compreensão do meio imediato, possibilitando também a elaboração de documentos históricos (fontes) por meio de registros eletrônicos. É um procedimento metodológico qualitativo, entendido como um “recurso moderno usado para a elaboração de registros, documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e grupos. Ela é sempre uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 17). No entanto, a história oral não deve ser entendida como um ato ou procedimento único que inviabilizaria todos os outros.
Memória e História Oral
Nossa memória não é homogênea ou monolítica. Não é fixa nem estática, nem estável nem permanente. É multifacetada, provisória, fragmentada e em constante reconstrução. Ela não pode ser vista como um simples arquivo mecânico onde são registrados os fatos que vivemos. Pelo contrário, a nossa memória é bastante complexa. Nossas lembranças são muito mais elaborações a partir dos fatos vividos do que o fato em si. Pois, ao lembrarmos de um fato marcante em nossa vida, “os elementos de nossa memória são filtrados e reelaborados conforme as circunstâncias do presente” (SANTIAGO; MAGALHÃES, 2015, p. 36).
Assim, a nossa memória pode ser caracterizada como uma estrutura dinâmica e individual (por ser única) e, ao mesmo tempo, coletiva (uma vez que nos remete às experiências sociais). A memória “é a fonte que abastece as lembranças, que, por sua vez, fundamenta as histórias que contamos” (SANTIAGO; MAGALHÃES, 2015, p. 37). Como afirmou Bosi (2000, p. 39), “a memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento”. O lembrar ou o esquecer significa efetivamente reconstruir ou repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado.
Nesse sentido, por mais clara que possa ser uma lembrança, ela não é a mesma imagem que ocorreu no passado. Isso porque a forma como percebemos o tempo e o mundo foi (e é) transformada junto com nossas ideias e nossos juízos de realidade e de valor.
O Projeto de História Oral
Este projeto foi realizado em três etapas durante o ano letivo de 2017. Tomamos o cuidado de manter a coerência com as propostas e o conteúdo do terceiro ano do ensino médio. A execução se adaptou perfeitamente à rotina da escola e das turmas. A maior parte das atividades ocorreu nos horários destinados às aulas de história. Os alunos foram divididos em grupos de até cinco pessoas. Optamos por trabalhar com apenas quatro turmas (A, B, E e G – turno da manhã) de um total de doze, em virtude dos limites pessoais, técnicos, de tempo e por envolver apenas uma única disciplina. Acreditávamos também que era preciso começar com algo menor para testar suas potencialidades.
Nessas turmas, inicialmente, realizamos uma verificação do conhecimento dos alunos sobre o processo histórico e uma análise crítica do material didático-pedagógico. Isso nos permitiu perceber que, na maior parte das turmas, predominavam concepções tradicionais de história e uma forte tendência à exaltação de grandes nomes.
Para os alunos, com exceções como Cleópatra, Xica da Silva, Princesa Isabel ou Maria Antonieta, a história foi (e ainda é) feita por homens e para homens que, quase sempre, são brancos, de origem europeia e pertencentes à elite dominante. O foco central dessa “história” é a história política, que se fundamenta basicamente nas fontes escritas oficiais e na hipervalorização dos grandes nomes, dos vencedores e dos líderes políticos, em detrimento das questões relativas ao gênero, às minorias e à diversidade sociocultural. Havia a percepção de que a história tinha uma única versão, uma única verdade, como se não houvesse outras interpretações dos mesmos fatos. Tal concepção acarretava, muitas vezes, na diminuição (e até mesmo na anulação) da relevância do protagonismo popular nas análises de determinados eventos históricos.
Diante dessa situação, era importante mostrar aos alunos que o conhecimento histórico, desde as últimas décadas do século XX, passou por grandes transformações. Muitos historiadores buscaram redefinir os objetos e os métodos de trabalho da ciência histórica, o que levou à “redescoberta” dos chamados “ausentes” da História, a partir da utilização de novas fontes de pesquisa. Isso resultou em múltiplas abordagens e no resgate dessas vozes silenciadas, superando assim as dualidades das análises históricas e valorizando as dinâmicas das estruturas sociais e culturais.
A partir desse ponto, e em conjunto com os alunos, elaboramos uma questão para nortear todo o projeto: “É possível reconstruir o passado de um povo a partir da memória e das lembranças individuais e coletivas de seus habitantes?”. Acreditávamos que a resposta era afirmativa, pois a memória, por meio da oralidade, é de fato um poderoso instrumento na construção da história cotidiana de um grupo social. Além disso, a memória “parte de uma realidade presente determinada, de um presente ávido pelo passado, cuja percepção nós sabemos que não nos pertence mais” (BOSI, 2003, p. 20).
A solução dessa questão implicava, necessariamente, uma compreensão mais dinâmica e significativa da história, com a valorização de aspectos sociais e culturais. Isso ampliaria e ressignificaria as vozes e as histórias daqueles que tradicionalmente eram excluídos dos livros didáticos. Assim, ao escrever ou narrar a história dessas pessoas, estamos tirando-as do silêncio a que estavam sentenciadas. Ao mesmo tempo, estamos afirmando que a história não precisa enfatizar apenas o econômico ou o político. A história não é um bloco único e estático; é múltipla e diversa. Na afirmação de Marguerite Yourcenar, “tudo é história!”. Tudo tem a sua história. Pois, como nos explica Perrot (2008), a história não é somente o que acontece – a sequência dos fatos, das mudanças, das revoluções, das acumulações que tecem o devir das sociedades –, mas é também o relato que se faz de tudo isso.
Optamos por um recorte temporal que privilegiou a cidade de Belo Horizonte na segunda metade do século XX. O foco foi a história de vida de mulheres comuns que fizeram parte da população da capital mineira, e cujas histórias tivessem importância na vida e na história dos alunos envolvidos. A escolha das mulheres como objeto de pesquisa teve por objetivo romper com um padrão recorrente na nossa produção historiográfica que, segundo o historiador brasileiro Paulo Rezzutti, apaga, reconta, deturpa ou diminui a participação das mulheres nos grandes (e também nos pequenos) episódios da História.
Por ser algo novo, foi necessário realizar oficinas e aulas expositivas dialogadas para instrumentalizar e familiarizar os alunos com os conceitos, ideias, técnicas e práticas referentes à metodologia da história oral. Durante esse momento, foi possível esclarecer dúvidas, como: “Por que realizar este projeto?”, “Por que ele é importante?”, “Que questões ele poderá solucionar?”, “Que resultados buscamos?” e “Como pretendemos alcançar esses objetivos?”.
Com uma compreensão mais clara da proposta e devidamente orientados, os alunos elaboraram um plano de ação que incluía um projeto e um cronograma. Também definiram o nome da pessoa a ser entrevistada e um texto justificando a escolha. Após o aceite da pessoa, o grupo, com base em sua biografia, elaborou um roteiro para a entrevista (um questionário semiestruturado, com estrutura flexível, aberta e com linguagem e vocabulário adequados ao entrevistado). Por ser um momento-chave, a preparação para a gravação da entrevista envolveu todo o grupo, mas a gravação envolveu diretamente apenas dois alunos. Um ficou encarregado de conduzir o depoimento, enquanto o outro foi responsável pela parte técnica e atividades de apoio.
Ao finalizar a gravação, o grupo começou o processo de transcrição do texto. Por ser algo bastante complexo, esta fase do projeto demandou mais tempo e foi dividida em três momentos. A primeira etapa, a “transcrição absoluta”, buscou reproduzir com fidelidade tudo que aconteceu e foi dito, sem cortes nem acréscimos. Em seguida, foi realizada a conferência do texto, que exigiu ouvir a gravação várias vezes. A escuta da entrevista foi feita simultaneamente à leitura da transcrição para corrigir possíveis erros, conferir a pontuação, localizar omissões ou acréscimos indevidos, podendo realizar entrevistas posteriores para preencher prováveis lacunas ou esclarecer algumas incoerências e inconsistências.
Na segunda fase, a textualização, ocorreu a passagem da linguagem oral para a linguagem escrita sem que houvesse perda da identidade do depoimento. Nesse momento, as perguntas foram eliminadas do texto, assim como os erros gramaticais, palavras sem sentido, sons e ruídos, visando um texto mais claro. Buscou-se o “tom vital” da entrevista, um recurso usado para requalificar a entrevista segundo sua essência, pois cada depoimento possui um sentido geral mais importante, uma espécie de eixo.
Na terceira e última fase, o texto foi apresentado em sua versão final, devidamente autorizado pelo depoente.
Resultados
A utilização da história oral nas aulas regulares do terceiro ano do ensino médio nos permitiu apresentar aos alunos a importância das experiências e dos relatos de pessoas comuns na construção do saber histórico. Isso contribuiu para ressignificar a história estudada (Brasil República e História Geral – séculos XIX-XXI) ao longo do ano letivo, e possibilitou a compreensão da história como um processo dialético e não linear, rompendo com visões mais tradicionais. Além disso, o processo de ensino aprendizagem ocorreu de modo mais dinâmico, colaborando para o protagonismo juvenil em uma perspectiva de sala de aula ampliada.
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