quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Artigo: Perfeição dinâmica e gesto criador: a obra de arte como processo e presença - Texto de Ronaldo Campos

 

Artigo: Perfeição dinâmica e gesto criador: a obra de arte como processo e presença


                                                                           Texto escrito por Ronaldo Campos



1. Introdução

O século XX trouxe consigo uma profunda transformação nos modos de conceber a arte e sua produção. Rompendo com os paradigmas da representação tradicional, a arte contemporânea passou a valorizar processos, gestos e experiências que escorrem entre a matéria e a forma. O gesto do artista, a improvisação e o processo criativo passaram a ser tão fundamentais quanto o objeto artístico resultante. Este artigo tem como objetivo analisar a obra de arte como um organismo dinâmico, em que o processo de criação não é um mero antecedente da obra, mas sim um componente constitutivo intrínseco a ela. Para tanto, exploraremos os conceitos de improvisação e gesto criador, especialmente na action painting, e o pensamento do filósofo Luigi Pareyson acerca da “perfeição dinâmica” da obra de arte. Ao compreender a obra como um processo acabado, busca-se mostrar o valor da arte em sua presença viva e contínua, desafiando a ideia de obra estática e imutável.


2. O “fim” da arte tradicional e a dissolução da representação

A modernidade artística inaugura uma crise na concepção clássica da arte como representação do mundo exterior. No trecho analisado, afirma-se que

“Não existe mais separação entre a realidade externa e a realidade do quadro. [...] O que deixou de existir foi a estrutura da representação.”

Tal constatação aponta para a perda do suporte tradicional da pintura e escultura, deslocando o foco da arte para o próprio ato criador. A imagem deixa de ser um reflexo ou uma cópia da realidade, para tornar-se uma presença autônoma, onde o gesto e a matéria ganham autonomia expressiva. Esse movimento corresponde ao fim da arte como mera mimese e ao início de uma arte que privilegia o processo, o movimento e a experimentação.


3. Improvisação: entre o acaso e a criação intencional

A improvisação, apesar de seu caráter aparentemente espontâneo, não se reduz à repetição de fórmulas ou à mera aplicação automática da memória. O texto ressalta que

“A improvisação tem um quê de agressivo que aceita o imprevisto justamente para trabalhá-lo [...] no intuito de submetê-las.”

Assim, a improvisação artística não é um ato de acomodação, mas um empreendimento criativo que acolhe o imprevisto para transformá-lo, refletindo um processo ativo e consciente de criação. Embora a memória e as convenções possam atuar como base para o improviso, este se distancia de um “conjunto de lugares-comuns” para constituir uma dinâmica de confronto e elaboração do novo. Fayga Ostrower, citada no texto, entende a improvisação como uma linguagem que se manifesta na forma da obra, possibilitando ao artista dar forma a sua criação de maneira inédita e concreta.


4. A obra como gesto e processo: o caso da action painting

A action painting exemplifica de forma paradigmática essa nova concepção do gesto como ato criador. Ao falar que o artista “representa na action painting o seu próprio gesto criador”, o texto evidencia a valorização do processo e da ação como elementos centrais da obra:

“Falar que o artista representa na action painting o seu próprio gesto criador significa mostrar o real valor do processo artístico e a sua relação com a obra produzida.”

Nessa perspectiva, a obra não é compreendida apenas como produto final, mas como extensão do gesto e do processo que lhe deu origem. O valor artístico da obra reside também em sua gênese, pois o ato de criação é simultaneamente um processo e um acontecimento presente na obra. O gesto criador, então, não é mera expressão de um impulso imediato, mas a concretização de um movimento que integra memória, improvisação e decisão consciente.


5. Perfeição dinâmica: o pensamento de Luigi Pareyson

Um dos conceitos centrais para compreender a obra como processo é o da “perfeição dinâmica”, desenvolvido pelo filósofo Luigi Pareyson. Segundo ele,

“A perfeição da obra não é imobilidade e estaticidade, mas precisamente acabamento, condução, perfectio, isto é, perfeição dinâmica.”

Para Pareyson, a obra não se reduz a um objeto acabado e fixo, mas é a concretização de um processo orgânico que culmina em seu término, seu amadurecimento. A obra traz em si o processo de sua formação, não como algo passado e separado, mas como parte integrante e atualizada do seu ser:

“A obra inclui em si o processo da sua formação no próprio ato que o conclui [...]”

Ainda, ele destaca que

“Não se forma a obra com ou mediante uma matéria, mas se forma uma matéria, e assim se forma a obra.”

Essa formulação ressalta a indissociabilidade entre matéria e forma na constituição da obra, reforçando que o processo de criação não é a aplicação de um plano sobre uma matéria preexistente, mas a formação simultânea e inseparável de ambos.


6. Consideração dinâmica vs. consideração genética

Pareyson também distingue duas formas de se considerar a obra de arte: a consideração genética e a consideração dinâmica. A primeira busca reconstruir os antecedentes históricos e contextuais da obra, enquanto a segunda focaliza a compreensão da obra no ato de sua realização, em sua autoaprovação estética:

“O processo aparece assim como incluído na própria obra: aplacada, não extinto; consolidado, não enrijecido [...]”

Dessa forma, a obra não é mera soma de eventos históricos, mas presença atual de um processo que se conclui no momento da fruição estética. Essa distinção é fundamental para evitar que a análise da obra se perca numa cronologia externa e para que se mantenha o foco na experiência da obra em sua integralidade.


7. Considerações finais

A reflexão aqui desenvolvida evidencia a importância de se entender a obra de arte contemporânea como um organismo vivo, em que o processo criativo, a improvisação e o gesto do artista não são antecedentes meramente instrumentais, mas componentes inseparáveis da obra. A noção de “perfeição dinâmica” apresentada por Luigi Pareyson oferece uma chave para compreender a obra como presença acabada e ao mesmo tempo aberta, em constante relação com sua gênese e sua materialidade. A action painting, por sua vez, ilustra concretamente essa concepção, ao valorizar o gesto criador como parte fundamental da obra.

Essa perspectiva desafia a ideia tradicional da obra como objeto imóvel e acabado, abrindo espaço para uma concepção mais fluida e orgânica da criação artística, que incorpora o acaso, o improviso e a continuidade do processo. Assim, a obra de arte não é um ponto final, mas um ponto de chegada dinâmico, capaz de integrar passado, presente e possibilidades futuras em sua totalidade.